Fernanda Nardoni – fer.nardoni@gmail.com
Resumo: O texto investiga os impasses e as possibilidades da análise realizada em outra língua, que não a materna, a partir da experiência clínica contemporânea, especialmente aquela mediada por plataformas digitais globais. Tendo a questão da língua como fio condutor, propõe-se uma reflexão sobre como a mudança de língua pode mobilizar efeitos subjetivos relevantes ao reatualizar marcas de estruturação do sujeito. Retoma-se, nesse percurso, a tese de Charles Melman segundo a qual a língua materna é aquela em que a mãe foi interditada, definição negativa que funda a linguagem como lugar da falta e do desejo. A partir de vinhetas clínicas, o texto busca mostrar como, mesmo diante de tentativas de domínio do sentido, o inconsciente insiste, e o desejo permanece orientado por aquilo que ainda não pôde ser dito. Assim, a linguagem é restituída em sua condição originária, a de ser sempre o Outro. Se o significante só opera remetendo-se a outro significante, então a língua, por estrutura, é sempre outra. Nesse cenário, cabe ao analista sustentar que os tropeços da fala não sejam tomados apenas como erros de vocabulário ou de tradução, mas como testemunhos de um sujeito dividido, cuja verdade se faz escutar por meio do equívoco. É justamente aí que a transferência assume seu papel central, como aposta no laço que torna possível falar, mesmo em outra língua.
Palavras-chave: língua materna, outra língua, análise, sujeito do inconsciente.