Costela de Adão

No dia 07 de agosto a Lei Maria da Penha completou 12 anos e nesse mesmo dia pela manha várias noticias sobre assassinato de mulheres por seus maridos, namorados, companheiros que mataram por amor, por ciúmes…
Em algumas dessas noticias chamou minha atenção o termo esganadura.. “marcas de esganadura” como também o fato de “cairem da janela” de seus apartamentos.
Certamente que a criação da lei favorece que tenhamos acesso à notificação dos casos ainda que também saibamos que é muito grande o numero de acontecimentos que não são registrados. Medo? vergonha?… Medo e vergonha? Certamente são elementos presentes, ate porque é de se perguntar o motivo dessas mulheres que foram mortas já estarem na sua grande maioria sofrendo agressões por algum tempo e de alguma maneira não “puderam”sair dali. É uma questão complexa. Para o momento destaco aqui o elemento presente na dimensão do feminicídio. Fruto da Lei Maria da Penha, o crime do feminicídio foi definido legalmente em 2015 como assassinato de mulheres por motivos de desigualdade de gênero e tipificado como crime hediondo. O destaque é sobre a necessidade de ressaltar que a questão do crime enquanto assassinato não basta para qualificá-lo, pois a dimensão do género, a dimensão do ataque à mulher é o ponto. Estamos no século XXI, e a vulnerabilidade da mulher está mais presente, ou tão presente quanto na Idade Média! Digo isso pois recentemente trabalhando o texto de Michel Poizat – “A Voz do Diabo”, encontramos dados bastante significativos do lugar de ameaça que a mulher representa e me parece possível dizer, que esse lugar de ameaça é desde sempre.
Esse autor tem vários estudos sobre a voz e se vale da psicanálise para situar a dimensão de gozo que a voz enquanto um objeto pulsional carrega. A Voz como objeto implica em toma-lo na referencia de um objeto que não é apreendido em sua completude. Um objeto que vem mostrar a impossibilidade de alcançar um gozo pleno por mostrar a natureza de um encontro marcado pela falta. O que evitamos, refutamos é exatamente essa dimensão de falta uma vez que o caráter de inadaptação, de enigma do desejo humano é fonte de angustia e questionamento constante.
Poizat indaga sobre o por quê do homem precisar cantar, de não se contentar em falar. Destaca como ao longo da historia da humanidade a musica se fez presente e entende os instrumentos enquanto prolongamentos da voz. Temos assim por essa via a experiência de um transbordamento, de um excesso de gozo que pela musica, pelo canto se experimenta. Tal transbordamento aproxima a experiência humana do divino, do anjo, do sagrado, mas também do profano, da transgressão, do pecado. Portanto é pela religião que vamos encontrar toda espécie de legislação sobre o gozo. Quanto se deve gozar sem se perder nesse gozo? Nesse trabalho o autor pesquisa essa dimensão tanto na igreja cristã quanto no islã.
Para a igreja católica na sua constituição mesma o canto foi permitido, em meio a muitas discussões e estratégias para definir as condições para essa permissão. Gozar era admitido desde que fosse para glorificar a Deus, mas não muito! Introduz-se assim uma dialética entre interdito e transgressão. E nesse contexto o canto surge como permitido no lugar da embriagues do vinho e ao ser permitido que se embriague pelo canto … e ao se embriagar, o excesso é de alguma forma incluído e tolerado. “Gozo de alguma coisa que vem preencher uma falta, encher um vazio”. Ao recusar o vinho, a droga, é o Espírito, isto é Deus, e um Deus que se cante que ele designa como o bom objeto. O objeto mais adequado para exercer a função de tamponar uma falta.
Nessa perspectiva que ele afirma que o diabo entrou pela porta da frente da igreja! Com seus hinos de louvor que entusiasmam os fiéis se valendo do gozo do canto e da musica em nome de Deus, mas gozam …
Importa notar que a mulher acompanha esse paradoxo. A voz da mulher, a voz da diva, é a voz do anjo, do sublime, do belo, de êxtase, que preenche a falta que nos habita trazendo o espírito divino para nosso conforto, suspendendo o sentimento de abandono e desamparo. Por outro lado a voz da mulher vem como aquela que é lasciva, fala mole e sedutora que embriaga e captura o homem, e o domina, e o leva aos extremos e o distancia de Deus e vocês já imaginam para onde isso vai… Sim ao inferno, ao diabólico que escraviza o homem a gozar mais e mais e mais…
Um amalgama se deu entre os cultos profanos e as festividades populares tais como o teatro . Esse amalgama talvez se deva ao fato que os cultos e festividades profanas pagãs funcionam a maior parte do tempo sob o que o autor chama de um tripé do gozo : mulher – vinho – musica. Baseado no transbordamento, na perda de controle de si promovido pela embriaguês nestes três registros sistematicamente associados.
Impressionante como a mulher entra nesse “tripé do gozo”, do gozo diabólico. A voz da mulher é o perigo, a presença da mulher evoca o perigo ao homem. Esse amalgama que coloca a mulher desde a Criação na perspectiva de fazer faltar ao homem desde a sua costela…
Em tempos de esganadura, lembro com Luiz Melodia na musica “Fadas”, especialmente na voz de Elza Soares a contrapartida:

As ilusões fartas
Da fada com varinha virei condão
Rabo de pipa, olho de vidro
Pra suportar uma costela de Adão

Cristina Helena Guimarães