Bacurau

Esperei um dia para escrever esse texto. Sabia que o terror que me tomava ao sair do Espaço Itaú Unibanco do Shopping Frei Caneca era o fruto de sucessivas provocações feitas pelo mote do filme. Ou o efeito do real no meu corpo. “Não precisava ser tão Tarantino.” – eu dizia. Mas o que vivemos hoje no Brasil é uma experiência bem à la Tarantino. O trivial é colocado em um foco extraordinário – graças ao Crivella (também) – e o não ordinário é trivializado – como um músico crivado de balas. Mas “ele estava no lugar errado e na hora errada.” Simples assim. Bacurau nos instiga, porque parece que estamos todos entorpecidos em um mecanismo de defesa coletivo. A vida se resume a cestas básicas e psicotrópicos. Acalma a barriga e acalma a cabeça. Como seres autômatos vamos ao nosso tripalium tentar resistir mais um dia sem sermos execrados por ter feito algo diferente da ética do desejo da capatazia. “Manda quem pode, obedece quem tem juízo.” E seguimos objetificados. O sujeito pede um fiapinho de decência e de escolha. Mas não. “Estamos vendendo o almoço para comprar a janta.” Bacurau é um pássaro, não um passarinho. Pássaros voam. Pássaros resistem. Pássaros têm o dom da fé. Não simbolizam a força da gravidade. Existem e vivem. E voam. Chegam os ianques e na prática perversa de poder começam a dar as cartas. Ah! Eles dão as cartas? They shuffle the deck of cards. They do. Eles embaralham as cartas. E se embaralham. Por que quem dá as cartas é quem é mais sábio. O perverso tem uma desvantagem. Na criação da cena perversa, ele fetichiza os objetos, que podem ser crianças, mulheres, homens e até cachorro (ou a Amazônia). Mas a perversão não conta com aqueles que lutam até o fim sustentando a incrível posição de sujeito. Na prática do poder, há os que não são capturados pelo olhar do perverso. Antes… estes o olham. De cabo a rabo. O fetiche cai. A simbolização cai. A vida cai. E o que sobra é um resto que facilmente pode ser a gênese da horda. Nesse tempo em que vivemos… é cada dia mais difícil governar, educar e analisar… os outros e a nós mesmos. Ama o próximo como a ti mesmo.

“Se queres viver, prepara-te para a morte.” Sigmund Freud

“Se queres preservar a vida, aproxima-te da crueldade que te habita e com a qual deves aprender a viver.” Betty Bernardo Fuks

Bacurau, longa metragem, 2019, dirigido por Julio Dornelles e Kleber Mendonça Filho.

Autor: Venícius Sabóia