Voz e vociferações nas redes sociais

Em 1966 Michelangelo Antonioni lança “Blow-Up”, um filme em que retrata a busca de um fotógrafo por aquilo que, quem sabe, tenha visto ao fundo de uma foto. Em 1981 Brian de Palma lhe rende uma homenagem ao gravar “Blow Out”, operando um deslocamento do registro do ver para o registro do escutar: um técnico de efeitos especiais, ao gravar sons para um filme, ouve aquilo que parece um tiro. A homenagem mostra os limites de tratarmos a voz e o olhar como homólogos: o filme de de Palma ainda precisa ser visto.
Trago essa comparação inicial porque temos a tendência, citando Lacan, de colocar voz e olhar em uma série, uma série de objetos (em paralelo a uma série outra, é verdade, com a pulsão escópica e a pulsão invocante). Se, por um lado, temos um ganho conceitual para operar, inclusive clinicamente, com a voz e o olhar, por outro esse ganho implica a necessidade de pensarmos numa conceituação propriamente psicanalítica para o que está em tela. Em outros termos, a voz, para ser um conceito em psicanálise, não deve se confundir com sua definição nos dicionários.
É só com essa preliminar que podemos abordar a voz, do ponto de vista psicanalítico, nas redes sociais. Não se trataria, portanto, de querer encontrar onde o áudio comparece numa experiência imageticamente impregnada (como temos no Facebook ou no Instagram, por exemplo). Sem esse cuidado, perder-se-ia a possibilidade de pensar como as vociferações, enquanto modo de estruturação subjetiva, encontram eco num meio em que ali onde pensamos encontrar mensagem temos, na verdade, código.

 Luiz Eduardo de V. Moreira