Por quê precisamos levar mais ainda a sério o desenho da criança nesse período de confinamento?

Julia Gordon, 9 anos, Desenho realizado 14/04/2020, capa do projeto @janela_do_confinamento

O desenho e a Psicanálise estão relacionados desde a descoberta por Freud do inconsciente. A primeira criança que Freud analisou, através de conversas seguidas com o pai, em que este relatava as trocas com o filho, teve, além de outras formas de expressão, o desenho. É conhecida a passagem do texto de Freud que escreve com as palavras da criança o diálogo que teve com o pai acerca da sua fantasia das girafas. A nossa suposição é que o pai tenha realizado o desenho a partir da descrição do filho das duas girafas, uma grande e outra pequena e, não por acaso, a memória desses relatos vem à nossa mente como se fosse um desenho. De acordo com o texto de Freud a fantasia da criança, que gerou a conversa de pai e filho é para nós ilustrativa da relação entre o imaginário e o simbólico. A expressão da fantasia aliada ao relato de sonhos, bem como as observações e perguntas da criança, constituíram o material que levou Freud a analisar Hans, ao mesmo tempo em que concebia a teoria primordial de um tratamento para a criança. Além disso, hoje poderíamos dizer que, em tempo real, Freud formulava as primeiras hipóteses que deram  sustentação às suas teses sobre as teorias sexuais infantis.

​Temos aí alinhados a importância da fala, dos sonhos, das fantasias e do desenho, além das perguntas da criança.  A partir dos quais, o desenho em uma sessão de análise de criança tem a mesma relevância do jogo e da fala. Notadamente, o desenho tornou-se um instrumento fundamental para a clínica da criança que apresenta mutismo como sintoma, bem como aquela que com consequências na fala, inclusive as surdas e mudas. 

Se acompanhamos alguma criança em seu cotidiano, observaremos que as atividades do brincar, do jogar e do desenhar, assim como sua expressão não somente verbal, são essencialmente os meios que ela tem de estar presente e se desenvolver. Não constituem a forma dela se comunicar por ela não ter o domínio da linguagem, mas sim a sua forma de ser e estar no mundo. 

Considerando essa condição, não podemos resumir essas experiências e vivências às atividades ou ocupações, ou pior, ao passa tempo.  A criança capta de forma aguda a visão, a forma e o tratamento que muitos adultos atribuem às experiências. Via de regra, ela abandona a sua condição de existir e se dedica a corresponder ao que supostamente acredita que seja importante para o adulto em troca de seu amor fundamental a ela. Neste sentido, a criança é capaz de seguir modelos estereotipados a fim de  nao comprometer o que seria  insuportável para ela ao gerar uma decepção ao mundo adulto. Essa é uma forma simples de ver o que se passa na psique da criança, que sabe usar diferentes estratégias e disfarces do que ela supõe que não pode ser visto. Tal funcionamento pode ser um fator de inibição.

Nesse ponto, ressalto a importância do desenho, pois é dele que trata o projeto, que sustenta como pressuposto que ele é uma das formas genuínas da criança se expressar no mundo e expressar o seu mundo. A criança se implica com a sua produção para além do que podemos imaginar. Se tivermos atenção ao gesto e ao olhar que ela imprime em seus traços, veremos que não existem dois traços iguais, de criança para criança. Podemos fazer um paralelo do traço com o timbre da voz. O timbre está para a voz, assim como o traço para o olhar. O timbre é único e singular em cada um de nós, na proporção em que o traço e a letra também são únicos  e diferentes para cada pessoa.

​O olhar é fundamental para a experiência do desenho; certamente pode nos surpreender que ele seja o vetor no desenho e ainda que  esteja à frente da capacidade de coordenação motora da criança. Também o desenho da criança leva o nosso olhar para um lugar por ela imaginado, de onde sempre está implicada. 

 ​O período de isolamento social é particularmente difícil para cada um. O projeto @janela_do_confinamento surgiu com o intuito de oferecer às crianças uma possibilidade de se expressarem  pelo desenho, mas tem o difícil   desafio de fazer   essa produção circular e de furar o confinamento.   Ele só poderá alcançar a dimensão simbólica se   não permanecer apenas como uma exposição virtual de desenhos em tempos difíceis, que provavelmente será arquivada depois, ou como uma forma de ocupar as crianças que estão dando muito trabalho.

Para isso temos que alcançar o objetivo de envio de convite aos amigos! Provoque o seu amigo, amiga!

​Parabéns Carolina, Gabriella, Tamar , Matteo, Felipe,Elisa, Gael D, Júlia, Meir, Lior, Bella, Beatriz, Raphael Gael, Clara, Lina, Guilherme, Bruno, Alexandre, Arthur ,Betty e, Michel Gordon, artista aquarelista que se dedicou ao projeto

Conto com a colaboração dos pais para dar andamento ao projeto

Arlette D Israel Schikmann

Psicanalista